domingo, 22 de Novembro de 2009

última chance



a era do erotismo esgotou-se.
resta-nos a hipótese da porno-grafia.
como tantas outras grafias e logias, invenção da modernidade.
como tantas invenções laicas, a continuação do religioso por outra via.
a aparição do inaudito.
nossa senhora.
sagrado coração de jesus.
há ainda algo de profanável, de violável? eis a questão.



agitação tardia da pátria


foto voj tirada de um carro em movimento entre cascais e lisboa, 18 nov. 2009

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mar, a tua noite, a cor escura
que como hálito primordial
irradias
sobre o meu passado


que guardas os peixes negros e prateados
que saltam
sobre o meu coração
e agitam as suas guelras
ensanguentadas
como asas de aves mortais.


mar que me dóis
como a minha infância
de que fui expatriado.



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voj nov. 2009

des-focagens/out of focus




































Fotos voj lisboa belém/ccb colecção berardo e exposições temporárias, nov. 2009

encontro



Quando o autor é lido pelo público, por cada leitor, e depois se dilui em todo este mundo indefinido e vago, e a sua obra segue o curso da história, como garrafa deitada ao mar sem se saber se chegará a alguma praia do futuro, tudo se passa em silêncio. O autor dá-se bem com esse silêncio e com a consciência que existe em si da alegria de escrever, de criar uma melodia, de abrir fotografias neste dia-a-dia vulgar, fotografias que se debruçam sobre outros universos. O autor sabe quando fez alguma coisa que se veja, como o arquitecto que coloca o último elo sobre a sua cúpula, e diz: não cairás, eu te ordeno. Dessa garantia o autor tem de estar certo. Já se demoliu tudo, mas dessa garantia de que continua a haver arte, uma certa forma ou fórmula, que cada um procura, de erguer à superfície da terra uma arquitectura, e poder mirá-la como coisa que entrega ao espaço público, essa potência, essa tesão, o autor tem de tê-la.
Mas quando o autor vai ter com o seu crítico, aquele que leu o seu trabalho pacientemente e lhe quer exprimir com toda a sinceridade o que pensa, o autor vai com o coração nas mãos. Não à espera de um elogio. Não à espera de uma análise fria, como se o seu trabalho fosse um grande retalho de carne estirado sobre uma mesa, sangrando, à espera de quem o prepare para fritar ou assar. O autor vai na expectativa da amizade. Qual amizade? A amizade do leitor que mais que outro qualquer leu a sua obra cautelosa, habilmente, sabiamente. O autor vai à espera de uma empatia. Com o que fez? Nem tanto. Vai à espera de uma palavra que lhe sirva de abrigo num dia de chuva e lhe diga, com afectividade: o que você fez não se aguenta sob esta chuva, é fraco, é pouco, é errado, são muitas as falhas, digo-lhe isto para seu bem.
E acrescente: mas o seu trabalho abriga-nos da chuva. Você puxou aqui por algumas forças, e construíu com elas algo. E é desse algo que o autor, que se dirige à pressa para o seu crítico para não chegar atrasado, vai sempre à espera. Daquela palavra que lhe permitirá sobre-viver à crítica, e continuar, de pé, erecto, potente, a tentar foder a arte, a tentar possuir, dar a volta à cintura, da maldita beleza, ou sublimidade, ou fantasia, ou sedução, ou violenta porno-grafia, ou seja o que for, que persistentemente persegue como à mulher que ardentemente deseja.



sábado, 21 de Novembro de 2009

Casa das Histórias de Paula Rego em Cascais - uma obra-prima de arquitectura (Souto de Moura) por dentro e por fora!